Mágoas

by Fátima Regina Saldanha

Mágoa

“Irai-vos, mas não pequeis: não se ponha o sol sobre a vossa ira”, ( Efésios, 4:26 ).

Alguém nos desprezou profundamente. Lançou sobre nossa alma o punhal da ironia. Julgou-nos impiedosamente, afirmando que o fracasso era destino fatal em nossa vida.

Olhou-nos com desdém e, com leve sorriso sarcástico, deu-nos as costas como se não tivéssemos nenhuma importância. Nesse momento, nosso peito se inflamou pela dor do descaso o coração ardeu envolvido numa estranha aura de desamparo.

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A mágoa pode surgir por muitos motivos, entre os quais por: •

• rompimento afetivo;

• maledicência sobre a vida sexual de alguém; • preconceito determinado por idade e trabalho;

• ingratidão dos filhos; • abandono de amizades queridas;

• traição amorosa;

• discriminação social; • exclusão motivada por raça, cor e credo religioso.

Aliás, ninguém consegue viver sem nunca se magoar com alguem ou com certas ocorrências.

Na realidade, a mágoa é uma das muitas emoções humanas. Só não se emocionam os corpos inanimados, visto que as emoções nas criaturas vivas revelam a importância que elas dão a si mesmas, aos outros e aos acontecimentos. Se nada nos importasse, nunca teríamos mágoa, mas isso é impossível – a “importância” que damos a tudo que existe mede o grau de sentimento que possuíamos por algo ou por alguém.

Aconselhar uma pessoa ofendida a imediatamente esquecer, não se magoando com a ofensa, seria o mesmo que pedir-lhe que agisse como se a agressão nunca tivesse acontecido.

Pode ser uma ideia equivocada a de “nunca se magoar e sempre esquecer”, pois a não-aceitação de uma emoção real resulta no seu deslocamento para coisas fora do mundo interior – o fato desagradável ficar focalizado no exterior, e a verdadeira causa da emoção permanece no escuro. Essa postura comportamental recebe o nome de ocultação dos sentimentos ou repressão.

Conseguiremos trabalhar melhor nossas mágoas não às reprimindo nem as intensificando, e sim desprendendo-nos, desligando-nos, ou melhor, colocando-nos a certa “distância mental/emocional” dos fatos ocorridos e das pessoas que neles se envolveram.

No entanto, isso não significa que devemos nos afastar hostil e friamente, viver alienados e impermeáveis aos problemas ou deixar de nos importar com tudo o que aconteceu, mas que podemos viver mais tranquilos e menos transtornados para analisar e, por consequência, concluir que as situações e os acontecimentos que nos cercam são reflexões ou criações materializadas dos nossos pensamentos e convicções.

Acreditamos que, ao fazer o proposto “distanciamento psicológico”, teremos sempre mais possibilidades para perceber o processo interno que há por trás de toda mágoa. As palavras de Paulo de Tarso aos Efésios validam essa ideia: “ Irai-vos, mas não pequeis: não se ponha o sol sobre a vossa irá”.

“Irai-vos,mas não pequeis” quer dizer: admita a mágoa, não viva com emoções recalcadas, porque quem vive transita cotidianamente em constante irritabilidade, sem saber de onde veio, para onde vai e quanto tempo vai ficar. “Pôr o do sol sobre a vossa ira” significa não intensificar, não reavivar fatos doloridos, não transportá-los do passado para o presente.

Não se magoar é impossível, mas perpetuar ou ignorar o fato desagradável pode ser comparado ao comportamento do escorpião que, quando enraivecido, inocula veneno em si mesmo com o próprio ferrão. Perdoar não significa apenas esquecer as mágoas ou mesmo fechar os olhos para as ofensas alheias. Perdoar é desenvolver um sentimento profundo de compreensão e aceitação dos sentimentos humanos, por saber que nós e os outros ainda estamos distantes de agir corretamente.

Espírito Hammed

Psicografia: Francisco do Espírito Santo Neto

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